quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Conto I - 3:45

  Devia ser meados de Agosto, talvez fins de Julho. Fernando Amaral vinha tendo insônia, noite após noite. Deitado, olhava para o teto, olhava para o relógio, olhava para o teto e tornava a olhar para o relógio, e para ele parecia que os números não mudavam, 3:45, sempre. Vivia só em um apartamento no centro da cidade. Como vivia no vigésimo-sexto andar, passava suas madrugadas a olhar pelas janelas, a ver o horizonte da cidade sumir por entre a neblina da alvorada. Passava suas madrugadas escrevendo em um diário, e passava suas madrugadas dando continuidade a suas pinturas à óleo. Às vezes tocava seu velho teclado Casio, às vezes simplesmente jogava-se ao sofá e assistia televisão até acabar dormindo, por volta das cinco da manhã.
  Dizia a primeira página de seu diário, "Diário de Bordo, Curitiba, 20 de Julho de 2015. Consegui sobreviver à essa semana que parece eterna. Algo parece não me deixar dormir à noite, algo parece estar lá quando tento dormir, mais especificamente às 3:45 da manhã. Deus, quantas semanas ainda faltam para essa semana acabar?". Desde então, parecia indisposto na empresa em que trabalhava. Incontáveis vezes seu chefe o pegou dormindo. Não por coincidência, seus gastos com café excederam todos os demais naquele mês.
  Eis que em uma daquelas madrugadas que passara em claro, depara-se escavando seu próprio passado, por entre fotografias que mantinha em uma caixa de sapato. De fotos suas de criança, foi para fotos suas já na adolescência; achara um anuário seu. Datava de 1996, estava já degradado pelo tempo. Recordou então seus velhos amigos com quem perdera contato, Heitor, Joaquim, Manoela, Paulo, Júlia... Mal lembrava-se da voz de cada um, mas tinha com cada um deles uma lembrança. Recordou-se das namoradas que teve até então; Camila, Vitória, Ana, Joana, Helena... Fazia já quase dois anos que não namorava, e já quase um ano que não se encontrava com amigos. Não tinha família por perto, tampouco tinha amigos. Fernando via-se completamente só. Não falava com ninguém na empresa em que trabalhava, e saia de casa apenas para trabalhar. Mesquinho e egoísta, importava-se mais com o dinheiro que com qualquer outra coisa. Mal ele sabia que o fantasma que o assombrava à noite era nada mais que sua própria solidão.