Devia ser meados de Agosto, talvez fins de Julho. Fernando Amaral vinha
tendo insônia, noite após noite. Deitado, olhava para o teto, olhava
para o relógio, olhava para o teto e tornava a olhar para o relógio, e
para ele parecia que os números não mudavam, 3:45, sempre. Vivia só em
um apartamento no centro da cidade. Como vivia no vigésimo-sexto andar,
passava suas madrugadas a olhar pelas janelas, a ver o horizonte da
cidade sumir por entre a neblina da alvorada. Passava suas madrugadas
escrevendo em um diário, e passava suas madrugadas dando continuidade a
suas pinturas à óleo. Às vezes tocava seu velho teclado Casio, às vezes simplesmente jogava-se ao sofá e assistia televisão até acabar dormindo, por volta das cinco da manhã.
Dizia a primeira página de seu diário, "Diário de Bordo, Curitiba, 20
de Julho de 2015. Consegui sobreviver à essa semana que parece eterna.
Algo parece não me deixar dormir à noite, algo parece estar lá quando
tento dormir, mais especificamente às 3:45 da manhã. Deus, quantas
semanas ainda faltam para essa semana acabar?". Desde então, parecia
indisposto na empresa em que trabalhava. Incontáveis vezes seu chefe o
pegou dormindo. Não por coincidência, seus gastos com café excederam
todos os demais naquele mês.
Eis que em uma daquelas madrugadas que passara em claro, depara-se
escavando seu próprio passado, por entre fotografias que mantinha em
uma caixa de sapato. De fotos suas de criança, foi para fotos suas já
na adolescência; achara um anuário seu. Datava de 1996, estava já
degradado pelo tempo. Recordou então seus velhos amigos com quem
perdera contato, Heitor, Joaquim, Manoela, Paulo, Júlia... Mal
lembrava-se da voz de cada um, mas tinha com cada um deles uma
lembrança. Recordou-se das namoradas que teve até então; Camila,
Vitória, Ana, Joana, Helena... Fazia já quase dois anos que não
namorava, e já quase um ano que não se encontrava com amigos. Não tinha
família por perto, tampouco tinha amigos. Fernando via-se completamente
só. Não falava com ninguém na empresa em que trabalhava, e saia de casa
apenas para trabalhar. Mesquinho e egoísta, importava-se mais com o
dinheiro que com qualquer outra coisa. Mal ele sabia que o fantasma que
o assombrava à noite era nada mais que sua própria solidão.